Talvez sobre afogamentos.

É como estar se afogando, mas ninguém vê a água.

Você acorda, levanta, faz o café, responde mensagens, sorri de leve. Cumpre o papel. A vida segue. Quem olha de fora, vê alguém funcional. Alguém que “tá indo bem”. Mas só você sabe o esforço que é manter a cabeça fora de algo que ninguém mais vê.

É como carregar um oceano dentro do peito. Um mar sem nome, sem mapa, que ninguém sabe que existe. As ondas vêm em horários aleatórios — às vezes no meio da madrugada, às vezes no meio de uma conversa qualquer. Elas batem forte, e você disfarça. Dá um gole d’água, força um sorriso. Ninguém percebe.

Porque não tem poça no chão, não tem roupa molhada, não tem sinal visível. É tudo interno. Invisível. Mas tão real quanto o ar que te falta. E esse é o maior paradoxo: você está se afogando... mas sem água, ninguém acredita no afogamento.

É um peso que não se explica. Um cansaço que não passa com sono. Um nó na garganta que você aprende a conviver. E você vai ficando bom nisso — em parecer bem. Vai criando pequenas boias disfarçadas: compromissos, distrações, piadas. Às vezes até convence a si mesmo de que está tudo sob controle.

Mas o corpo sente. A alma sente. A exaustão não mente.
E quando ninguém vê a água, ninguém estende a mão.
Porque como pedir ajuda por algo que nem tem forma? Como gritar por socorro se sua dor não tem cor, nem som, nem cena de cinema?

É aí que a solidão se instala — não a de estar sozinho, mas a de não ser enxergado. A de ser transparente num naufrágio silencioso. E é difícil. É solitário tentar continuar nadando quando você sente que está afundando devagar.

Mas deixa eu te dizer uma coisa, com todo o cuidado do mundo: você não está errado por sentir isso. Não está fraco. Não está “drama demais”. Você está apenas humano. E humanos, às vezes, se afogam sem água.

Você não precisa gritar alto pra merecer ser ouvido.
Você não precisa ter sinais visíveis pra justificar sua dor.
Você não precisa esperar afundar por completo pra pedir socorro.

Tem gente por aí que sabe nadar nesse tipo de mar. Que já esteve exatamente onde você está. E que pode te ouvir com calma, te lembrar que você merece mais que sobreviver escondendo o que sente.

O primeiro passo talvez seja esse: parar de fingir que não tem água.

Respira. Encosta. Descansa os braços.
Você não precisa nadar o tempo todo.
E, mesmo que ninguém mais veja…
Eu vejo.
E estou te dizendo: o seu cansaço é real. E ele merece cuidado.


Escrito por Mell Gonçalves

Comentários

  1. Mano, esse texto me pegou de um jeito… é exatamente isso. Às vezes a gente tá rindo, postando, saindo, mas por dentro tá tipo lutando pra não afundar. E ninguém percebe. É muito real esse sentimento de tá cansado sem nem saber explicar por quê. Obrigado por colocar isso em palavras, de verdade.

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